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IMIGRAÇÃO
Setembro 2019

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Fui apresentado a ele num jogo de futebol. Vestia uma camisa da seleção argentina, listas azuis e brancas, verticais. Conversamos um pouco, papo amistoso, nada de tirar sarro sobre a eterna rivalidade entre as nossas seleções de futebol, apenas algumas brincadeiras de praxe, afinal, os hermanos são nossos tradicionais adversários no mundo da bola. Batemos uma bolinha juntos, acho que até nos acertamos em alguns lances, jogamos no mesmo time. Mas não foi mais do que isso. Após o jogo, cada um se despediu e fomos cada um para o seu lado.

 

Na semana seguinte, novo encontro, em Westchester, subúrbio de Nova York. Acordei bem cedo para não chegar atrasado, afinal seria um momento importante. Peguei o metrô até a última estação de um dos lados do Bronx e depois, um ônibus intermunicipal. Mais uns quinze minutos de viagem e finalmente o destino.

 

O prédio onde ele estava não era de luxo, diria que era para classe média da cidade, talvez a média da classe média. Não importava, precisava cumprir o meu compromisso com ele, sem ficar reparando nos detalhes do lugar.  Perguntei por ele na entrada do prédio. Todos o conheciam.  Afinal, quem não o conhecia? Deve estar conversando com alguém por aí, disse-me um deles. Espere que ele já chega, fala outro.

Ok, aguardo mais um pouco naquele saguão envidraçado e com um belo jardim em frente.  Eis que chega, tranqüilo, talvez  um tanto devagar, a barriga um pouco avantajada o incomodava.

- Como vai ser o trabalho?, pergunto. Por onde começo?

Assim se iniciou o meu  primeiro dia como faxineiro desse prédio.  Maradona é o apelido de um argentino radicado naquele condado vizinho a Nova York, brincadeira de outros imigrantes latinos, por sua nacionalidade e por gostar de futebol, sendo treinador de um time amador da cidade.  Era também o síndico (“super”) desse prédio, onde eu, diariamente, a partir de então, teria que fazer os serviços de limpeza.

Foi logo no começo de minha estadia aqui nos Estados Unidos e estava já enrolado por causa das despesas realizadas até aquele momento e para as quais o valor da bolsa do CNPq era insuficiente. Não tive outra opção senão procurar serviço para ganhar algum dinheiro extra.

O trabalho era simples e rotineiro. Todos os dias, me explicou Maradona, assim que chegasse, deveria recolher todo o lixo reciclável nos seis andares do prédio, cujos moradores depositavam em duas lixeiras, em cada uma das alas do prédio, que tinha cerca de 100 apartamentos. Esse lixo deveria ser levado para um depósito, no andar térreo, onde depois era separado e acondicionado adequadamente.

Logo em seguida deveria cuidar do lixo não reclicável (“trash”), que os moradores lançavam a partir de um tubo localizado perto de uma das lixeiras e então acabava chegando a uma máquina, no subsolo, que preparava esse material.  Aprendi a manejar essa máquina rapidamente, foi fácil. Uma alavanca hidráulica, acionada eletronicamente, comprimia o lixo acumulado na caixa de recepção dos materiais, reduzindo seu volume. Após outro comando eletrônico, a boca de um tubo de metal era aberta, de cerca de 60 cm de diâmetro, onde uma longa extensão de tubo plástico preto (o mesmo usado no Brasil para colocar lixo) estava conectada, e esse lixo era empurrado para esse tubo plástico,que tinha as extremidades fechadas com arame. À semelhança do jeito que se prepara uma lingüiça de carne de porco, essa enorme máquina preparava essas grandes “lingüiças de lixo”, de conteúdos variáveis, mas fétidos.  Conheci, senti e cheirei, de perto, bem perto, o resultado do consumismo diário da classe média-média americana.

A próxima etapa do trabalho era limpar os corredores do prédio, uma varrida geral antes da limpeza com desinfetante e sabão líquido, com um esfregão com longas fibras de algodão. Era o que me tomava mais tempo. Ficava horas a passar o esfregão no chão de ladrilhos pequenos, torcendo-o depois de algumas passadas. A cada andar deveria trocar o conteúdo do balde, que tinha rodinhas para facilitar seu transporte e manuseio.

Depois do almoço, atividades variadas, conforme o dia. Havia um dia para limpar os jardins, passando uma máquina de cortar grama movida à gasolina e depois recolher todas as folhas que caiam das árvores na garagem. Em outro dia, varria a garagem, que era muito grande, dois pisos, com aberturas ao longo da rua.  Havia ainda um dia para varrer todas as escadarias das duas alas do prédio, incluindo as das saídas de emergência.

Mas invariavelmente, três vezes por semana, eu transportava o lixo para a calçada. Um dia destinado ao lixo reciclável e outros dois ao não reciclável, alternadamente. No dia do lixo reciclável, deveria incluir todos os objetos deixados nas lixeiras, como móveis e eletrodomésticos, livros, revistas (e outros papéis), garrafas plásticas e de vidro, dentre outros materiais explicitados pela prefeitura local.  Haveria uma multa ao prédio caso essas orientações não fossem respeitadas, coisa de cidade organizada.  Havia ainda dias em que fazia pequenos reparos elétricos e hidráulicos  em apartamentos vagos, serviços de pedreiro e pintura, para deixar prontos para nova locação.

Confesso que na maioria das atividades realizadas ficava muito isolado, fazia as coisas sozinho, sem conversar com ninguém, o que me incomodava um pouco, pois gosto de ficar entretido em conversas com outras pessoas.

Mas o que mais me incomodava mesmo era a sensação de “invisibilidade”, isto é, para a grande maioria dos moradores do prédio eu praticamente não existia, muitos não me “enxergavam” esfregando o chão, limpando o jardim, varrendo ou tirando o lixo. Quase ninguém me cumprimentava também. Um dia, Maradona contou para uma moradora quem eu era e o que fazia em Nova York. Ela ficou muito impressionada. E passou a me cumprimentar, nas poucas vezes que a encontrei novamente.

Como verificado naquele experimento feito pelo professor de Psicologia da USP, que ficou alguns anos trabalhando como gari no próprio campus, realmente, conforme a situação social/econômica e o tipo de trabalho realizado, muitas vezes as pessoas são ignoradas. Quanto mais baixo o nível sócio-econômico, maior sua “invisibilidade”. Terrível.

Assim fiquei cerca de dois meses, até minha esposa conseguir um emprego de faxineira em uma casa de família em New Jersey, o que permitiu equilibrar o orçamento doméstico.

Foi uma boa experiência, sem dúvida; serviu para provar para mim mesmo que era capaz de fazer serviços braçais, sem me incomodar com esse tipo de trabalho. Aprendi, na prática, que todo trabalho é digno e nobre, por mais simples que seja.          Ajudou-me também a perder alguns quilos; acho que perdi uns cinco, fiquei mais magro. Bom para o meu corpo.  Acostumei-me também a voltar a receber ordens, bem diretas, na hora, afinal, Maradona era meu chefe e o serviço era novo e diferente para mim.

Mas principalmente, reforcei meus conceitos e práticas de relacionamento pessoal, humanitários. Todos merecem respeito, independentemente do que fazem ou possuem. Foi a principal lição.
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